quinta-feira, 28 de julho de 2011

Pelo direito a morrer com dignidade

Alguns anos atrás, um grande amigo meu morreu, vítima de câncer na garganta. Por quase 2 anos, ele lutou contra a doença. Não é uma luta fácil. O tratamento é quase tão agressivo quanto o próprio tumor.

Sua esposa e amigos lutaram muito para que nada lhe faltasse. Entretanto, seu sofrimento era tamanho, que muitos dos seus amigos não tinham mais coragem de visitá-lo. Não os culpo, de forma alguma. Era realmente muito duro ver o seu sofrimento, saber que sua morte era inevitável e, ainda assim, conseguir olhá-lo nos olhos.

Eu acompanhei todo esse processo, fiz tudo o que estava ao meu alcance para confortá-lo em vida, mas também me preparei para o momento que seria o mais difícil: dar-lhe conforto na hora da morte.

Um dia, tive com ele uma conversa muito direta, e iluminada. Por causa do tumor, ele já não era capaz de falar, apenas me respondia por gestos e olhares. Em resumo, ele sabia que não havia esperança de cura, estava sereno com a aceitação de sua morte iminente, e queria que nós também aceitássemos esse fato, com a mesma serenidade.

Chorei muito... mas não por tristeza, nem dor... Pelo contrário, enquanto ele encarava sua própria morte com tanta serenidade, entendi tanto sobre a vida que seria incapaz de descrever nesse texto.

Poucos meses depois, internado em um quarto de hospital, seu fim se aproximava. Ele tinha dificuldade para respirar: o tumor o estava sufocando. Sua oxigenação já havia atingido nível crítico.

Era madrugada. Estávamos eu e sua esposa acompanhando-o quando o médico de plantão nos chamou, e disse que havia duas alternativas: abrir uma traqueostomia, o que lhe daria mais alguns meses de "vida", ou aplicar-lhe um sedativo, para que pudesse morrer sem sofrimento. Fico feliz em ter tido a oportunidade de estar lá, nesse momento, para participar dessa decisão.

Antes que o sedativo fizesse efeito, com o mesmo olhar sereno, ele me olhou nos olhos, segurou minha mão, e sorriu. Foi a minha despedida. Retirei-me, e deixei-o a sós com sua esposa.

À tarde, outro amigo me ligou: "nosso amigo partiu"...

Toda essa experiência me fez refletir muito sobre o sentido da vida, e a importância de morrer com dignidade.

Hoje, a situação se repete com outra pessoa próxima: após 5 anos sobre uma cama, inconsciente e fisicamente paralisado por uma doença neurológica irreversível, um tio meu encontra-se no leito de uma CTI, entubado, com dreno no pulmão, respirando por aparelhos. Seu corpo começa a inchar, e dá sinais de que precisará de diálise... ainda assim, os médicos insistem em executar procedimentos para prolongar a sua "vida".

Qual o sentido disso? Quando o paciente tem chances de se recuperar, qualquer tratamento vale o sofrimento, mas se não há chance alguma de recuperação... por que insistir?

Ao prolongarmos artificialmente a vida de um paciente terminal, estamos realmente preocupados com sua vida, ou apenas nos esquivando da difícil decisão de responder por sua morte?

Hoje, os médicos dispõem de conhecimento e tecnologias poderosas e muito úteis, para prolongar e recuperar a vida, mesmo em situações extremas, mas é preciso sabedoria - de médicos e familiares - para reconhecer o momento de parar, e permitir que a morte aconteça.

Não estou falando em eutanásia - a intervenção do médico para provocar ou antecipar a morte de um paciente. Estou falando em ortotanásia, que é o termo utilizado pelos médicos para definir a morte natural, sem interferência da ciência, permitindo ao paciente morte digna, sem sofrimento.

Em nossa vida tão corrida, não temos tempo para refletir sobre a morte. Mimados pelos encantos e poderes da tecnologia, perdemos a sabedoria para discernir onde e como aplicá-los. Por medo de decidir pela morte de outra pessoa, preferimos nos omitir, submetendo-a a um sofrimento desumano, e desnecessário.

Precisamos refletir sobre isso. Todos nós.

4 comentários:

tania disse...

Fábio, eu fui uma das pessoas que não tiveram a coragem de olhar nos olhos do amigo. Até hoje me pergunto se essa foi a decisão mais correta.Naquela época não tinha condiçoes. Sinto por teu tio, sinceramente. Abs!

Elcris disse...

Profº Fábio, certa vez, um grande amigo de Jesus, chamado Lázaro, irmão de Marta e Maria, passou pela triste cituação "a morte".
Porém Jesus disse o seguinte:
Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá;(João 11:25).
É triste sim essa situação, porém existe esperança para todos nós. Não é verdade?
Basta crer e confiar em Jesus, Ele mesmo afirma nesse versículo!
Elcris Brito

Fábio Prudente disse...

São situações completamente diferentes, Elcris:

Lázaro (supostamente) já estava morto, e Jesus (supostamente) o trouxe de volta à vida - uma vida normal, plena. Ele (supostamente) "levantou e andou" - sem a necessidade de aparelhos.

Não creio que Jesus o traria de volta à "vida" em estado catatônico, sendo mantido artificialmente por aparelhos.

Nara disse...

Vc se marcou em uma foto minha, no facebook, fui olhar seu perfil e acabei caindo aqui no seu blog :)

Bem... perdi meu padrinho há dois anos para um câncer de intestino. Por meses, ele ficou em cima de uma cama de um hospital, sofrendo, sem sequer poder beber água. Ainda assim, meu tio nunca perdeu sua fé. "Não entendo" porque deus, "com toda sua bondade", permitiu tanto sofrimento ao meu tio :( Não era nem isso que ia comentar. Escrevi só pelo comentário acima.

Ia falar sobre um filme muito bom que trata de suicídio assistido, em pacientes terminais, o "You don't know Jack" http://www.imdb.com/title/tt1132623/ Confesso que antes de vê-lo era bem contra eutanásia, ortonásia, ou qualquer outra coisa que não fosse a tentativa de prolongar a vida. Mas esse filme me fez repensar sobre o assunto... Vale a pena ver :)

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