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sábado, 14 de maio de 2011

Mamãe, eu sou gay...

Vejam o que aconteceu com uma amiga minha: sua filha, de 9 anos, na hora do almoço, ergueu seu copo de guaraná como se fosse uma taça de champanhe, e anunciou:
--Atenção gente, chamem os repórteres!!! -- vamos brindar, porque tenho uma importante revelação a fazer...

--Eu sou gay!
Ainda sem entender direito o motivo daquele ato, a mãe perguntou: mas porque você acha que é gay, minha filha? e ela respondeu:
--Ah, mãe... porque eu não gosto de brincar com meus amigos... apenas com minhas amigas... então: gay é quando uma menina gosta de outras meninas, ou quando um menino gosta de outros meninos!
Isso poderia ser entendido como uma inocente brincadeira de criança, mas a conversa se estendeu, e os argumentos da menina - ao mesmo tempo seguros e equivocados - deixaram a mãe realmente preocupada.

Interessante notar o tom "televisivo" que a menina criou, chamando "repórteres", fazendo um "brinde", anunciando uma "revelação"... isso pode dar uma pista de como esse tema chegou ao seu interesse: o homossexualismo está na pauta da TV, em todos os horários. São personagens gays nos programas de humor e nas novelas... discussões sobre a união civil de homossexuais nos telejornais... campanhas contra a homofobia... não há uma preocupação em saber como esses conteúdos serão assimilados pelas crianças.

Mas há ainda outra questão: de onde ela tirou o conceito do que "gay é quando uma menina gosta de outras meninas, ou quando um menino gosta de outros meninos"? - não podemos atribuir isso diretamente à TV, sem uma análise mais cuidadosa.

Esse é o principal interesse da mãe, e para isso ela já está levando a filha a uma psicóloga. A preocupação da mãe não é saber se a menina realmente é gay ou não... o problema é compreender como esse tema entrou na "agenda" de uma menina de 9 anos, e a partir de quais elementos ela está construindo seus conceitos sobre o assunto.

Eu aproveito a carona no caso, para discutir uma outra questão: o respeito à opção sexual de cada indivíduo e o combate à homofobia são temas importantes, mas... qual é a melhor forma - e qual o melhor momento - de levar esse tema às crianças?

Cartilha contra homofobia x "Kit Gay"

O Ministério da Educação iniciou, nas escolas públicas, a distribuição de um material cujo conteúdo é, no mínimo, discutível: um conjunto de cartilhas, cartazes e vídeos, cujo objetivo é "orientar" ou "balizar" a discussão sobre o homossexualismo e homofobia nas escolas.

Eu não quero me somar aos moralistas e religiosos, que se opõem ao material com argumentos preconceituosos. A discussão não é por aí.

A questão é que o MEC está cometendo um grande erro ao tentar combater o preconceito com outro preconceito. O material elaborado e distribuído pelo MEC "impõe" a aceitação de alguns valores, de forma tão arbitrária quanto aqueles que se opõem a eles. A discussão não é ser "contra" ou "a favor" do homossexualismo, como um confronto de dogmas. Esse caminho não levará a lugar algum.

Em um dos vídeos mais polêmicos, intitulado "encontrando Bianca", um jovem relata que sempre se viu como menina, que se sente melhor se vestindo como mulher, e que prefere ser chamada de "Bianca", em vez do seu nome de registro, "José Ricardo". Argumenta que todos devem respeitar essa sua opção, e relata que muitas vezes sofreu com piadas e até agressões.

Podemos perceber que a intenção dos seus idealizadores é boa. O tema central é o respeito à individualidade e às diferenças, e não há dúvidas de que esse é um tema que merece ser abordado.

Entretanto, quando tratamos de políticas públicas, precisamos levantar outras questões: o tema está sendo abordado da forma correta? como avaliar a qualidade desse material? como a mensagem contida no vídeo será assimilada pelos jovens de diferentes faixas etárias? sob qual metodologia esse tema será abordado nas escolas?

A Educação precisa ser apresentada ao Método Científico

Sou educador e, infelizmente, todos os dias, percebo que a Educação não conhece o Método Científico. Tudo é feito na base do "achismo". Uns acham que devem fazer assim, outros acham o contrário, daí montam comissões, conselhos, que passam meses discutindo o sexo dos anjos, filosofando no vazio, buscando um "consenso"... mas ninguém propõe uma abordagem científica!!!

Como sabemos se um novo remédio é eficaz ou não? Existe um longo processo para isso! - são testes rigorosos em laboratório, publicação de resultados em periódicos e eventos especializados, onde esses resultados serão avaliados, reproduzidos e possivelmente questionados por outros profissionais da mesma especialidade para, somente após a validação, ser autorizado o teste em um pequeno grupo de pacientes, com o acompanhamento de um outro grupo, de controle, e a avaliação de mais resultados. Pode-se levar décadas para a homologação de uma nova droga ou tratamento - mas todo esse processo tem dois objetivos: garantir que aquela droga realmente produz o efeito prometido, e conhecer seus efeitos colaterais.

Esse material que o MEC está distribuindo foi avaliado em algum estudo científico? seus resultados foram publicados em periódicos e eventos especializados? sua metodologia foi reproduzida e avaliada por outros profissionais, que confirmaram os resultados? seus efeitos foram devidamente medidos e comparados a um grupo de controle?

Toda política pública na Saúde baseia-se em resultados de processos científicos rigorosos. Por que, então, deve ser diferente na Educação? Por que a Educação é sempre tratada de forma mambembe, através de improvisos e achismos? Será que, algum dia, a Educação será tratada como uma ciência?

Em uma estrutura escolar falida, que não consegue sequer formar a capacidade básica de interpretação de textos, é sensato despejar cartilhas sobre um tema tão complexo, sem nenhum estudo sério sobre seus efeitos e consequências?

sábado, 4 de setembro de 2010

Sir Ken Robinson: Tragam a revolução no aprendizado!

Quatro anos após a sua primeira palestra ao TED, Ken Robinson nos impressiona novamente com sua clareza, simplicidade, eloquência e humor.

Dessa vez, ele clama por uma revolução na Educação:
Temos de ir de algo que é essencialmente um modelo industrial da educação, um modelo de manufaturas, que é baseado na linearidade e conformidade e agrupamento de pessoas. Temos de ir para um modelo que é mais baseado nos princípios da agricultura. Temos de reconhecer que a prosperidade humana não é um processo mecânico, mas orgânico. E não se pode prever o resultado do desenvolvimento humano; tudo que se pode fazer, assim como os fazendeiros, é criar condições nas quais eles vão começar a prosperar.

(clique em "view subtitles" para selecionar legendas em PT-BR)

Veja também: Ken Robinson: Escolas matam a criatividade?

domingo, 22 de agosto de 2010

A aposta nos alunos sem grife

O Estadão traz uma interessante matéria sobre o que todos já sabem... mas muitas instituições de ensino ainda não querem admitir: na hora de selecionar candidatos aos seus postos de trabalho, muitas empresas dão mais valor à atitude e compromisso do candidato que à sua "bagagem" de competências.
A formação acadêmica não garante mais que terei um bom candidato. Existem etapas de seleção mais eficazes, como a dinâmica de grupo e a entrevista individual. Hoje, muito mais do que olhar a universidade de onde vem o candidato, é importante olhar para ele.
Leia a matéria do Estadão

Essa matéria esconde, em suas entrelinhas, um assunto que muitas instituições de ensino se negam a debater:

Até pouco tempo atrás, os diplomas tiveram a função de "título de nobreza". Mestres, doutores, graduados simplesmente substituíram os barões, duques e condes de outrora. Parte da casta que era simplesmente chamada de "elite" teve que se adaptar (um pouquinho) às mudanças da história, e passou a ser chamada de "elite intelectual", mas sua essência permaneceu a mesma: se antes os filhos da nobreza tinham privilégios, por serem filhos da nobreza, passaram a ter os mesmos privilégios apenas por terem um diploma (cela especial, reserva de mercado para diversas profissões...).

Criou-se uma falsa democracia: teoricamente, o acesso à Educação (e aos privilégios legais advindos de seus títulos) é aberto a todos, e a conquista dos "títulos" depende apenas do esforço e capacidade de cada um. Na prática, sabemos que a realidade era bem diferente: não havia cursos noturnos, nem facilidade de acesso aos recursos didáticos... o próprio processo seletivo sempre privilegiou àqueles que podiam pagar pelos "treinamentos de decoreba" (também conhecidos como pré-vestibulares). Todo o sistema foi cuidadosamente criado para facilitar a vida dos ricos, e dificultar o acesso dos pobres.

Enfim, o Brasil começa a mostrar sinais de mudança. O nosso longo período colonial vai terminando, e vamos finalmente entrando no mundo moderno.

Com a abertura de faculdades de 5ª categoria em cada esquina, passamos a distribuir diplomas para todos. Agora, todos somos nobres!

Claro que não defendo aqui a abertura sem critérios dessas faculdades de 5ª categoria! - mas penso que elas produzirão um efeito colateral benéfico: a desvalorzação do diploma, como título de nobreza. A partir do momento que todos tiverem um canudo de papel nas mãos, esse passará a valer o que ele realmente é: apenas um canudo de papel.

Diante desse cenário, algumas instituições de ensino tentam desesperadamente se agarrar ao passado, caracterizando-se como instituições de grife. Seu argumento é: o diploma emitido por mim, embora seja legalmente igual a todos os outros, na verdade é melhor que os outros. É uma tentativa de manter a "nobreza" do seu título...

Mas... se o valor não está no título, onde está, então??? - É disso que trata a matéria do Estadão!

As empresas não estão mais se deixando iludir pelos títulos de nobreza, emitidos por instituições de grife. Perceberam que os jovens engomadinhos, de salto alto, formados nas "boas escolas" com notas altas, muitas vezes não estão dispostos a arregaçar as mangas para enfrentar os desafios reais. Finalmente, os candidatos serão escolhidos por sua "competência" e não por sua "origem".

E que "competência" é essa?

Claro que toda a bagagem de "conhecimento" que adquirimos nas boas instituições de ensino continua a ser importante. Ninguém vai contratar um profissional que não possui o conhecimento necessário - e nesse sentido, espero que, em algum momento, essas faculdades de 5ª categoria fechem as suas portas (ou evoluam, ofertando instrução de qualidade). Mas a competência vai além do conhecimento. Muito além!

A capacidade de continuar aprendendo, a motivação para trabalhar em equipe e enfrentar novos desafios, a tenacidade para resolver problemas e obstáculos reais, a coragem para encarar o desconhecido, e abrir novas fronteiras e oportunidades, a capacidade para tomar decisões, aliando competência técnica e discernimento ético... essas são as competências que as empresas procuram, mas que a maioria das instituições de ensino (principalmente as "de grife") se negam a desenvolver.

O ensino tradicional, que coloca alunos enfileirados para reproduzir o que o professor reza, está com os dias contados. As instituições de ensino precisam encarar essa realidade. Formular um bom curso não é apenas definir uma boa grade de disciplinas, e contratar bons professores para cada uma delas. Formar bons profissionais é muito mais do que descarregar conhecimento em suas cabeças.

Na hora de procurar uma instituição para a sua formação, esqueça a grife. Não procure uma instituição apenas por ser famosa, tradicional, pois essa "fama" está perdendo o seu valor. Também não procure aquela instituição de 5ª categoria, que facilita a emissão do diploma sem que você tenha que estudar, porque o diploma em si já não vale mais nada. Procure uma instituição que trabalhe com problemas reais, que estimule o trabalho em equipe, que desenvolva parcerias com empresas, que vá além da sala de aula com alunos enfileirados.

Em tempo... também não escolha a sua profissão pelo valor da remuneração, ou por ser a "carreira do momento". Descubra do que você gosta, e procure aliar sua vocação a alguma necessidade. Apaixone-se por sua profissão, dedique-se a ela por prazer, não por dinheiro. Mergulhe de cabeça, tenha fome e sede de conhecimento, dedique-se, aprenda e melhore a cada dia... você só conseguirá fazer isso se sentir prazer com o que você faz. O dinheiro virá, em consequência.


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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Ensinando a Ensinar e Compreendendo a Compreensão

"Teaching Teaching & Understanding Understanding" é um premiado vídeo de 19 minutos sobre o ensino em universidades e instituições de ensino de nível superior.

Ele é baseado na teoria do "Alinhamento Construtivo" desenvolvida pelo Prof. John Biggs.

O vídeo apresenta os fundamentos para compreender o que um professor necessita fazer para garantir que todos os tipos de alunos realmente aprendam o que ele deseja.

Este vídeo também está disponível em alta qualidade em DVD com legendas em sete idiomas (Inglês, Francês, Espanhol, Português, Italiano, Alemão e Dinamarquês)"


Fonte:
- [ http://www.daimi.au.dk/~brabrand/short-film/ ]


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Fala Sério, Sr. Feynman !

Richard Feynman é quase um personagem folclórico: Físico visionário, participou do desenvolvimento da Bomba Atômica e revolucionou a Ciência moderna, antecipando conceitos como nanotecnologia e computação quântica. Ganhador do Prêmio Nobel em Física pela teoria da Eletrodinâmica Quântica, tornou-se mais famoso por ser um grande contador de anedotas, e por sua maneira fácil e direta de se comunicar - no meio acadêmico, ou em bordéis.

(o divertido Dr Feynman)

Entre 1951 e 1952, Feynman passou alguns meses no Brasil, e deu aulas na Academia Brasileira de Ciências. A seguir, estão algumas opiniões que o próprio Feynman registra sobre a forma como nós, brasileiros, estudamos ciências*.

"Em relação à educação no Brasil, tive uma experiência muito interessante. (...)"

Feynman descreve uma longa sequência de perguntas que fizera aos alunos, envolvendo a polarização da luz quando refletida por uma interface entre dois meios com índices de refração diferentes, mesclando perguntas teóricas (fórmulas) e práticas (observação da luz refletida, na superfície da baía, que podia ser vista pela janela)...
Depois de muita investigação, finalmente descobri que os estudantes tinham decorado tudo, mas não sabiam o que queria dizer. Quando eles ouviram “luz que é refletida de um meio com um índice de refração”, eles não sabiam que isso significava um material como a água. Eles não sabiam que a “direção da luz” é a direção na qual você vê alguma coisa quando está olhando, e assim por diante. Tudo estava totalmente decorado, mas nada havia sido traduzido em palavras que fizessem sentido. Assim, se eu perguntasse: “O que é o Ângulo de Brewster?”, eu estava entrando no computador com a senha correta. Mas se eu digo: “Observe a água”, nada acontece – eles não têm nada sob o comando “Observe a água”.

Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia. A palestra foi assim: “Dois corpos… são considerados equivalentes… se torques iguais… produzirem… acelerações iguais. (...). Os estudantes estavam todos sentados lá fazendo anotações e, quando o professor repetia a frase, checavam para ter certeza de que haviam anotado certo. Então eles anotavam a próxima frase, e a outra, e a outra. Eu era o único que sabia que o professor estava falando sobre objetos com o mesmo momento de inércia e era difícil descobrir isso.

Eu não conseguia entender como eles aprenderiam qualquer coisa daquela maneira. Ele estava falando sobre momentos de inércia, mas não se discutia quão difícil é empurrar uma porta para abrir quando se coloca muito peso longe do eixo, em comparação quando você coloca perto da dobradiça – nada!
Ao final do ano letivo, ele foi convidado para apresentar um seminário, sobre suas experiências com o ensino no Brasil... em sua fala, disparou:

"O principal propósito de minha apresentação é provar aos senhores que não se está ensinando ciência alguma no Brasil." (...)

Então ergui o livro de Física Elementar que eles estavam usando. "Não são mencionados resultados experimentais em lugar algum nesse livro, exceto em um lugar onde há uma bola, descendo um plano inclinado, onde ele diz a distância que a bola percorreu em um segundo, dois segundos, três segundos... Os números têm erros - ou seja, se você olhar, você pensa que está vendo resultados experimentais (...), no entanto, (...) se você realmente fizer esse experimento, produzirá cinco sétimos da resposta correta, por causa da energia extra necessária para a rotação da bola (que o autor do livro desconsidera).

(...) Ao folhear o livro aleatoriamente, posso mostrar que não há ciência, mas sim memorização, em todos os casos. Por exemplo:

"Triboluminescência é a luz emitida quando os cristais são friccionados..."

Digo: e aí? você fez ciência? Não! Apenas foi dito o significado de uma palavra, em termos de outras palavras. Não foi dito nada sobre a natureza - quais os cristais que produzem luz quando friccionados, nem por que eles produzem luz. Alguém viu algum estudante ir para casa e verificar isso experimentalmente?

Por fim, disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema autopropagante, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada.

Como eu gostaria que essas fossem mais algumas das divertidas anedotas do Dr Feynman... mas infelizmente, ele está falando sério. É exatamente assim que nossas escolas funcionam! - e o pior, sua descrição, feita em 1951, ainda é bastante atual.

(*) Trechos retirados do livro "O Sr está brincando, Sr. Feynman?", de sua própria autoria.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Inversão de valores...

Sem comentários!

(clique para ampliar)

Nota: Recebi essa charge por email. Infelizmente, não tenho a referência. Se alguém tiver, por favor, mande para mim.

sábado, 13 de junho de 2009

Professores pré-históricos na Era da Informação - Parte III

O Google causou uma revolução no acesso à informação, ao disponibilizar gratuitamente uma ferramenta de buscas suficientemente inteligente para trazer as informações mais relevantes para uma dada pesquisa, com uma interface tão simples que qualquer pessoa - mesmo quem não tem qualquer intimidade com computadores - pode usar.

Agora, a Wolfram Research, desenvolvedora do já conhecido Mathematica, lançou o Wolfram Alpha, uma ferramenta on-line de computação de conhecimento, com uma certa capacidade de processamento de linguagem natural, que é capaz de solucionar problemas em diversas áreas do conhecimento, com uma interface quase tão simples e fácil de usar quanto a do Google.


Assim como o Google trouxe grande mudança na forma como alunos buscam soluções para seus trabalhos escolares, provocando profundas discussões entre professores sobre o mérito dos alunos na elaboração desses trabalhos, o Wolfram Alpha promete o mesmo.

Esse artigo traz uma excelente discussão sobre o receio que alguns professores estão enfrentando com o lançamento dessa nova ferramenta. Resumi abaixo algumas citações:
"Considerando que ainda há professores e departamentos nos EUA onde calculadoras gráficas ainda não são permitidas, alguns professores provavelmente irão reagir com resistência (em adotar essa ferramenta em suas aulas), ou mesmo com acusações de que seu uso possa ser considerado como uma forma de trapaça." -- Prof. Maria Andersen, Teaching College Math.

"Nos próximos semestres, nós teremos estudantes em nossas aulas perguntando 'Por que não podemos usar o Wolfram Alpha?'. Estamos tentando discutir ao máximo essa questão agora, para que nossos colegas não sejam surpreendidos por esse tipo de questionamento." -- Prof. Derek Bruff, Walpha Wiki - Teaching Undergraduate Math with Wolfram|Alpha

Para mim, o problema não está no uso dessas novas ferramentas e recursos tecnológicos, e sim na forma como os professores tentam avaliar o desempenho de seus alunos.

Na minha época de estudante, os professores pediam que fôssemos a uma biblioteca, para "pesquisar" sobre um determinado tema. O que os alunos faziam? iam até a biblioteca (*), tiravam fotocópias de um texto qualquer sobre aquele assunto (geralmente de uma enciclopédia), e depois transcreviam esse texto à mão (**), mudando algumas palavras, para tentar disfarçar.

Hoje, os professores continuam pedindo os mesmos tipos de trabalhos, mas os alunos se modernizaram: eles sentam-se diante de um computador, digitam o tema do trabalho no Google, copiam o primeiro texto que aparece como resposta (CTRL-C), colam no editor de textos (CTRL-V), imprimem com uma capa bacana, e pronto.

Nada mudou. Professores passam tarefas desinteressantes, mecânicas, e os alunos procuram o jeito mais fácil de se livrar daquela chatice. No passado, os alunos ainda podiam memorizar alguma coisa, enquanto copiavam o texto à mão. Hoje, os alunos não têm a menor chance de memorizar, porque a cópia e impressão são automáticas. Mas não podemos atribuir essa "piora de desempenho" à nova tecnologia! - a raiz do problema reside na forma irracional como os professores elaboram as tarefas.

Com o Wolfram Alpha, os alunos podem obter as soluções, passo a passo, para todos os problemas das tradicionais "listas de exercícios", com a mesma facilidade com que obtêm textos para os "trabalhos escolares" através do Google. Se os professores de matemática continuarem pedindo para os alunos resolverem apenas equações, eles passarão a aplicar a mesma técnica CTRL-C / CTRL-V que já aplicam para as outras disciplinas.

Para o próprio Stephen Wolfram, "essa é a natureza do progresso (...) a tecnologia sempre permite fazer mais e mais coisas automaticamente."

A escola precisa entender e aceitar isso. É preciso reformular as tarefas escolares, e todo o processo de avaliação do desempenho do aluno, colocando o foco na compreensão, interpretação e raciocínio, em vez da reprodução de conteúdos e técnicas.

Se uma ferramenta permite resolver e visualizar automaticamente problemas algébricos complicados, isso é ótimo! pois permite que eu explore mais e mais problemas, situações e variações com meus alunos!

Se os alunos podem usar essa ferramenta para responder automaticamente suas listas de exercícios, cabe ao professor elaborar questões onde o raciocínio seja mais importante que a técnica algébrica!


Na Era da Informação, encontrar as respostas certas tornou-se muito fácil... que tal, então, estimular os alunos a fazerem as perguntas certas???


Essa é a parte III de uma série. Leia também as partes I e II.


(*) - estou falando dos anos 1980... a web ainda não existia, e muito menos o Google!

(**) - pois é... também não era muito comum ter computadores e impressoras em casa, nem na escola, naquela época


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Professores pré-históricos na Era da Informação - Parte II

O Ars Technica trouxe um interessante artigo sobre um estudante de ciência da computação da San Jose State University (EUA) que, após a conclusão de uma disciplina, publicou os códigos-fonte feitos por ele como resposta aos exercícios e atividades. O professor da disciplina opôs-se vigorosamente a essa iniciativa do estudante, levando o caso até a direção da Universidade, alegando que ele estava violando a política de conduta da instituição, pois era uma forma de ajudar os colegas (das futuras turmas) a "colar".

O caso não é único, e expõe uma ferida aberta na forma como professores tentam avaliar o desempenho individual de seus alunos, em plena era do compartilhamento da informação.


Esse ilustre professor certamente não refletiu que, ao argumentar que o aluno estaria ajudando os colegas das próximas turmas a "colar" nos trabalhos da disciplina, ele estaria assumindo que as tarefas de sua disciplina permanecem sempre as mesmas, semestre após semestre. Ou será que esse professor considera isso uma coisa normal?

Professores têm que compreender, urgentemente, duas coisas:
  1. Eles não são a única fonte de informação.
    Existe um mundo inteiro lá fora, onde os estudantes podem (e devem) trocar informações, conhecimentos, e experiências. Quando a tarefa é bem elaborada, e estimula a busca por soluções criativas e não apenas a regurgitação da "matéria dada", a troca de soluções e experiências entre estudantes pode ser muito mais proveitosa que dezenas de aulas.
  2. O trabalho acadêmico precisa ter utilidade.
    Chega de mandar estudantes escreverem trabalhos repetitivos, cujos resultados ninguém está interessado em ler. É preciso trabalhar com problemas reais, estimulantes, cujo ciclo de desenvolvimento seja maior que a duração da própria disciplina, e cujos resultados sejam úteis como material para as próximas edições da disciplina.
Duas das melhores disciplinas que eu tive em meu mestrado, no Centro de Informática da UFPE, foram exatamente as que estimulavam seus alunos a introduzir novas funcionalidades em trabalhos que foram desenvolvidos por alunos de turmas anteriores, criando um projeto que crescia e melhorava a cada semestre. Essa é uma forma de dar utilidade ao trabalho acadêmico, além de estimular a troca de informações e conhecimento entre colegas.

Felizmente, nesse caso, o bom senso falou mais alto e, após uma longa disputa, a instituição posicionou-se a favor do aluno, afirmando que professores não têm o direito de proibir que alunos divulguem seus próprios códigos-fonte.


Essa é a Parte II de uma série. Leia também as partes I e III.


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Professores pré-históricos na Era da Informação - Parte I

Sempre fui um sujeito contestador. Nunca aceitei imposições sem uma devida justificativa. Daí, você já pode imaginar que eu tive muitos conflitos com meus professores! - Professores tradicionalmente gostam de impor métodos e dogmas aos seus alunos, e eu sempre gostei de procurar caminhos alternativos, e confrontar resultados.
Quando eu estava no curso técnico de Eletrônica, tive uma professora de matemática que proibia o uso de calculadora(*), e nos obrigava a usar tabelas trigonométricas e de logaritmos para resolver os problemas (se você não sabe que tabelas são essas, sorte sua!). Um dia, quando eu questionei essa arbitrariedade, ela argumentou que "se você ficar dependente da calculadora, o que fará no dia que esquecê-la em casa?"; o meu contra-argumento, na bucha, foi: "e o que a senhora fará no dia que esquecer suas tabelas em casa?". Isso rendeu um grande bate-boca, que se estendeu por todo o período.
Algum tempo depois, já no curso de Engenharia, deparei-me com um professor de Desenho que queria nos ensinar métodos arcanos para dividir uma circunferência em n partes iguais, usando somente compasso e esquadros. Eu juro que tentei ficar calado, mas não resisti. Depois do quarto ou quinto método, questionei: "professor, porque não podemos simplesmente dividir 360 / n e marcar as divisões usando um transferidor?"(**). Você imagina qual foi a resposta dele? - acredite se quiser: seu argumento foi: "e o que você fará quando não tiver um transferidor por perto?"... impressionante! professores tão distantes, no espaço e no tempo, tinham o mesmo argumento irracional! - e eu já tinha uma resposta na ponta da língua para esse argumento!

A lista é longa, e eu poderia contar aqui vários outros casos semelhantes. O fato é que professores se habituam a ensinar alguma coisa que já foi útil em alguma época, e muitas vezes não param para refletir sobre a utilidade daquilo no momento presente. Pior: esses dois casos demonstram que professores tendem a confundir um método particular com o conceito geral. Não importa a época, sempre será necessário usar logaritmos ou trigonometria; esses são conceitos que devem ser bem compreendidos, independente da época. O método de resolução, entretanto, depende da tecnologia disponível na época. No passado, usavam-se tabelas e réguas de cálculo, depois calculadoras, planilhas eletrônicas, e aplicativos para manipulação algébrica.

Infelizmente, muitos professores continuam proibindo (ou tentando proibir) o acesso dos alunos a novas ferramentas e tecnologias, julgando que elas tiram do aluno o "mérito" pela resolução do problema. Nessa semana, coincidentemente, li dois artigos discutindo casos como esses, em escolas americanas.

Discuto esses dois casos nas partes II e III deste artigo.

(*) - isso foi em 1986, e antes que algum engraçadinho pergunte, já existiam calculadoras eletrônicas nessa época, sim!
(**) - isso foi em 1990, e os CADs ainda não eram tão acessíveis como hoje - o desenho era feito no papel, mesmo, usando-se lápis, esquadros, compasso e... transferidor.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Se o treinador também fosse o árbitro...

No mundo dos esportes, os atletas vivem dois momentos distintos.

Durante o treinamento, eles desenvolvem suas habilidades, estudam estratégias, aprimoram suas técnicas, melhoram o condicionamento físico - sempre orientados por um técnico, ou treinador, que avalia cada detalhe, identifica falhas, e indica o que deve ser feito para superá-las. É um processo duro, cansativo, às vezes tedioso e doloroso, mas necessário, e cumprido com disciplina e determinação.

No momento da competição, é hora de pôr à prova todo o trabalho desenvolvido durante o treinamento. Entra em cena, então, um novo personagem: o árbitro. Novamente, o atleta estará sendo avaliado, mas é um tipo completamente diferente de avaliação, pois o objetivo, agora, é classificatório, e visa exclusivamente determinar quem sobe no pódio, e quem fica de fora. Embora o treinador ainda possa dar orientações importantes ao seu atleta, não lhe cabe estabelecer os critérios da competição, opinar sobre a arbitragem, muito menos influir em sua classificação.

O atleta percebe, claramente, que seu treinador não tem influência sobre os resultados da competição e, portanto, reconhece que sua única chance de vencer é seguir, com disciplina e determinação, suas orientações durante o treinamento. Cria-se, assim, uma relação de admiração, respeito e cooperação, entre treinador e atleta, que trabalham juntos, para o mesmo fim.


No mundo da Escola, entretanto, esses dois papéis - treinador e árbitro - são atribuídos a um único personagem: o professor. É ele quem avalia as falhas ao longo do processo de aprendizagem, quem indica tarefas e exercícios a serem cumpridos com o objetivo de corrigir eventuais deficiências, e é ele, também, quem estabelece os critérios das "provas", e atribui as notas que vão definir se o aluno será aprovado ou não.

Ao contrário do atleta, o aluno percebe que o professor acumula as duas funções e, portanto, deduz que existem dois caminhos para a aprovação: ou ele se empenha em seguir, com disciplina e determinação, as orientações do professor, ou busca o caminho mais fácil, e tenta convencê-lo a relaxar os critérios da avaliação. Cria-se, assim, uma relação de antagonismo, entre aluno e professor, que passam a trabalhar como se estivessem em lados opostos.

Como desdobramento inevitável desse processo, o professor também deduz que existem dois caminhos para obter "sucesso" na aprovação de sua turma: ou ele luta contra o instinto natural de seus alunos (e dele próprio), e se empenha em encontrar artifícios para convencê-los a enfrentar a disciplina do estudo, ou ele se rende à lei do menor esforço, relaxa os critérios da avaliação, e vão todos felizes para casa.

Esta é a receita do famoso "pacto de mediocridade", tão conhecido nas Escolas de nosso país, onde o professor finge que ensina, e o aluno finge que aprende.


É óbvio que a avaliação no ensino deve ter o objetivo de melhorar o processo de aprendizagem, mas também é óbvio que, em algum momento, o aluno terá que ser submetido a uma avaliação classificatória, que vai decidir se ele atingiu ou não um conjunto de critérios previamente estabelecidos.

O que aconteceria, nos esportes, se o treinador fosse também o árbitro das competições? teríamos atletas verdadeiramente competitivos?

Se você, assim como eu, pensa que a resposta é não, então responda-me: Por que, então, aceitamos que esse sistema ilógico seja aplicado à Educação?

Sem metas, não há estímulo;
sem estímulo, não há determinação;
sem determinação, não há superação;
sem superação, há mediocridade.


Sua opinião é importante.
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