Alguns anos atrás, um grande amigo meu morreu, vítima de câncer na garganta. Por quase 2 anos, ele lutou contra a doença. Não é uma luta fácil. O tratamento é quase tão agressivo quanto o próprio tumor.
Sua esposa e amigos lutaram muito para que nada lhe faltasse. Entretanto, seu sofrimento era tamanho, que muitos dos seus amigos não tinham mais coragem de visitá-lo. Não os culpo, de forma alguma. Era realmente muito duro ver o seu sofrimento, saber que sua morte era inevitável e, ainda assim, conseguir olhá-lo nos olhos.
Eu acompanhei todo esse processo, fiz tudo o que estava ao meu alcance para confortá-lo em vida, mas também me preparei para o momento que seria o mais difícil: dar-lhe conforto na hora da morte.
Um dia, tive com ele uma conversa muito direta, e iluminada. Por causa do tumor, ele já não era capaz de falar, apenas me respondia por gestos e olhares. Em resumo, ele sabia que não havia esperança de cura, estava sereno com a aceitação de sua morte iminente, e queria que nós também aceitássemos esse fato, com a mesma serenidade.
Chorei muito... mas não por tristeza, nem dor... Pelo contrário, enquanto ele encarava sua própria morte com tanta serenidade, entendi tanto sobre a vida que seria incapaz de descrever nesse texto.
Poucos meses depois, internado em um quarto de hospital, seu fim se aproximava. Ele tinha dificuldade para respirar: o tumor o estava sufocando. Sua oxigenação já havia atingido nível crítico.
Era madrugada. Estávamos eu e sua esposa acompanhando-o quando o médico de plantão nos chamou, e disse que havia duas alternativas: abrir uma traqueostomia, o que lhe daria mais alguns meses de "vida", ou aplicar-lhe um sedativo, para que pudesse morrer sem sofrimento. Fico feliz em ter tido a oportunidade de estar lá, nesse momento, para participar dessa decisão.
Antes que o sedativo fizesse efeito, com o mesmo olhar sereno, ele me olhou nos olhos, segurou minha mão, e sorriu. Foi a minha despedida. Retirei-me, e deixei-o a sós com sua esposa.
À tarde, outro amigo me ligou: "nosso amigo partiu"...
Toda essa experiência me fez refletir muito sobre o sentido da vida, e a importância de morrer com dignidade.
Hoje, a situação se repete com outra pessoa próxima: após 5 anos sobre uma cama, inconsciente e fisicamente paralisado por uma doença neurológica irreversível, um tio meu encontra-se no leito de uma CTI, entubado, com dreno no pulmão, respirando por aparelhos. Seu corpo começa a inchar, e dá sinais de que precisará de diálise... ainda assim, os médicos insistem em executar procedimentos para prolongar a sua "vida".
Qual o sentido disso? Quando o paciente tem chances de se recuperar, qualquer tratamento vale o sofrimento, mas se não há chance alguma de recuperação... por que insistir?
Ao prolongarmos artificialmente a vida de um paciente terminal, estamos realmente preocupados com sua vida, ou apenas nos esquivando da difícil decisão de responder por sua morte?
Hoje, os médicos dispõem de conhecimento e tecnologias poderosas e muito úteis, para prolongar e recuperar a vida, mesmo em situações extremas, mas é preciso sabedoria - de médicos e familiares - para reconhecer o momento de parar, e permitir que a morte aconteça.
Não estou falando em eutanásia - a intervenção do médico para provocar ou antecipar a morte de um paciente. Estou falando em ortotanásia, que
é o termo utilizado pelos médicos para definir a morte natural, sem interferência da ciência, permitindo ao paciente morte digna, sem sofrimento.
Em nossa vida tão corrida, não temos tempo para refletir sobre a morte. Mimados pelos encantos e poderes da tecnologia, perdemos a sabedoria para discernir onde e como aplicá-los. Por medo de decidir pela morte de outra pessoa, preferimos nos omitir, submetendo-a a um sofrimento desumano, e desnecessário.
Precisamos refletir sobre isso. Todos nós.